
William Faulkner em momento relax. Sabia TUDO.
Havia um bom tempo que eu não me sentia BURRO.
Ocorreu.
Não incapaz, nem cansado, frágil, etc. Burro mesmo. BURRO AFÚ, em algo que dói mais ainda para quem escolheu como profissão de vida trabalhar em meio à intelectualidade desse Brazíu de mell dêls.
Como bem sabe quem gosta de literatura (poderia bem ser filosofia, psicanálise, ou mesmo direito, aqui), chega uma hora em que certos autores são incontornáveis. O destino, pelas tantas, te COLOCA em frente a alguns sujeitos e/ou obras, nem que seja para falar mal, passado o suplício da leitura (estudo).
Sartre, por exemplo, está fumando um cigarro na sala de espera e não arreda o pé do meu consultório. Atenderei ele em breve, prometo (comecei, de leve, ano passado, lendo a qualificada monografia "introdutória" do Bornheim).
Estranhamente coincidente o fato de que o Daniel tenha me mandado um e-mail incrível sobre FAULKNER por esses dias é o fato de que andei às voltas com ele.
William Faulkner é o sujeito em questão.
O CASO é que tentei (sim, TENTEI) ler "O Som e a Fúria" tempos atrás, depois de anos e anos sabendo que Faulkner está para muita gente boa como Lula está para Obama: é O CARA.
Não rolou (BURRO). E por um simples motivo: venci um capítulo e meio do livro SEM ENTENDER NADA.
Captei o que Faulkner queria com o texto e só posso ficar BOBO diante da habilidade dele na (des)construção de uma narrativa que deixaria maravilhado mesmo o mais vanguardista dos cineastas: um capítulo inteiro escrito sob a óptica de um sujeito com problemas mentais, através de frases soltas que FOGEM da linearidade ao menor sinal de que vão COMEÇAR a compor um período cuja inteligibilidade está ok. Maravilhado fiquei, diante de tamanha maestria. O problema é que foi TAMANHA a maestria que extrapolou o minhas (pífias) possibilidades.
Não entendi CHONGAS (BURRO AFÚ).
Não entendi quem era quem. O que estava em jogo. Qual era o pastel. Se a idéia é compor um cenário de decadência familiar através de short cuts (como dizem as sinopses da obra), até que eu me saí bem na compreensão de um modo geral, mas ao final de cada página eu ficava TONTO.
O segundo capítulo, apesar de modificar a estrutura narrativa também não ajudou. Mesmo a "árvore genealógica" da família das personagens, que o próprio Faulkner fez constar como anexo nas edições subseqüentes à primeira da obra em questão não ajudou (me embaralhou MAIS, na real).
DESISTI de "O Som e a Fúria", mas NÃO de Faulkner.
Encarei "Palmeiras Selvagens" em seguida, tomando-o, assim como o primeiro, emprestado da patroa.
ESPLENDOR.
Mesmo com o ROMBO no cérebro deixado pelo abandono do livro mais famoso, o autor MOSTROU A QUE VEIO para minhas entranhas, nessa narrativa que também tem muito prestígio em sua carreira.
A constatação de que Faulkner simplesmente REINA sobre os sentimentos contidos em CADA TRECHO escrito chega a ser assombrosa.
Nada como ler um cara e COMPREENDER o PORQUÊ de ele ser um dos titãs do OLIMPO.
Abaixo, dois trechos que podem ser descritos como FILHOS DA PUTA:
Percebam O QUE ELE FAZ até onde ele eleva o nível da análise da personalidade tipicamente feminina sem fazer uso de sexismos clichê:
E recebam, de brinde, esse MURRO no ESTÔMAGO:
Dizem que o amor morre entre duas pessoas. É mentira. Não morre. Simplesmente abandona você, vai embora se você não é bom o bastante, digno o bastante. Não morre; quem morre é você. É como o oceano: se você não presta, se começa a empesteá-lo, ele te cospe fora em alguma parte para morrer. Você morre de qualquer jeito, mas prefiro me afogar nooceano a ser vomitada numa faixa perdida de praia e acabar secada pelo sol até me tornar uma mancha suja sem nome.
O FINAL dos contos entrelaçados (mas não evidentemente interligados) que compõe o livro ("O velho" e "Palmeiras Selvagens" self-titled) é o que menos importa. O recado vai dado na linha de frente (linha de TIRO) do desenrolar TRÁGICO da caminhada dos personagens que DIZEM SIM ao enfrentamento de um destino que é CERTO, mas que NÃO TRIUNFA SOBRE ELES. Eles triunfam, apesar dos paradoxais "fracassos".
Triunfamos todos nós.
Triunfo eu, eis que Faulkner não é mais um mistério e eu posso olhar mais uma rodada do Brasileirão sem CULPA, em virtude outro livro findo. Mamãe, sou CULTO. Sou COOL aliás.





6 comentários:
Ser do mal !
Não cai nessa de confundir dificuldade de leitura com burrice. Burro é o autor que não sabe expressar de forma CLARA e INTELIGENTE o que quer dizer.
E o Sartre? Só vale pq pegou a Simone! Muito bom é o livro da correspodência deles.
Não gostei muito dessa coisa do "cool", mas concordo sobre a genialidade do Faulkner.
É meu autor preferido, sempre. E das obras que eu já li, O Som e a Fúria é a melhor, tu precisas tentar de novo.
A não-linearidade das histórias e dos pensamentos me deixa fascinada!
Que bom que tu gostaste :)
(beijo!)
Tu tens o dom.
Nunca li. Sempre tive curiosidade. Não me parece burrice não entendi Som e Fúria, assim como Ulisses, do Joyce. São enigmas que exigem, pelo jeito, um tempão para desvendar.
Gostei muito das passagens e do paradoxo que tu salienta ao final.
Sensacional. Outro que tá ali na sala de espera do meu consultório. Eu tô com Sartre ali, em dois livros, meio lidos.
Agora eu fiquei bastante tentada a ler "palmeiras selvagens". Arrumarei um tempinho pra ele. Fiquei encantada.
Quanto ao sarte, esses dias eu cheguei da aula, olhei pra ele (não lido) na estante e decidi que ia me arrumar pra sair.
Te indico "balanço final" da simone. Acho que foi um dos últimos (senão o último) livro dela.
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