Daniel de Oliveira, soberbo em "A Festa da Menina Morta" (Bra, 2008, Matheus Nachtergaele). Ao contrário do Cazuza que ele interpretou à perfeição com o carisma emprestado da própria figura mítica do cantor, o "Santinho" é escandaloso, cruel, gritão, alienado e esconde suas fragilidades em uma aura de narcisismo alimentada por toda uma cidade.
Nos últimos tempos vem ganhando força um tipo de contorno de condução da narrativa cinematográfica no Brasil: na falta de termo melhor para denominar, cunhei a expressão "estética-do-'inferno é aqui'" ou "cinema da degradação total" para cuidar de filmes como "Amarelo Manga" e "Baixio das Bestas".
A decadência econômica, moral, social, política, e principalmente ética que ronda os cenários tenebrosos "literariamente" localizados pelos filmes em Brasís periféricos forma uma ciranda onde já não se sabe o que influenciou no que e o que acarreta em que. O fato é que o lodo fétido do fundo do poço da vida em um mundo que é cada vez mais cruel atinge a tudo e a todos e a sensação que se tem é que que aquele cara que EXPLODE a própria CACHOLA com uma ponto oito na ESQUINA é quem tem razão, no final das contas. Isso, é claro, depois de você quase VOMITAR.
Poderia se tratar de uma reles exploração da estética da violência cotidiana (violência, aqui, em todos os múltiplos sentidos) se não fosse REAL: não precisamos imaginar psicóticos mascarados nem sex-campings sendo atrapalhados por fantasmas, porque SABEMOS bem que se tem algo que EXISTE e FERE é a podridão crua verificável a olho nu.
Assumindo a ponta absoluta dessa estética e elevando (e MUITO) o nível da conversa, surge "A Festa da Menina Morta" de Matheus Nachtergaele. Trata-se do mesmo conceito, mas agora visitado com um acabamento artístico superior, que não encobre a sujeira, mas a POTENCIALIZA na medida que a torna palatável e arrebatadora (É onde, em minha opinião, "Baixio das Bestas" peca: é tão dantesco que a violência encobre até mesmo qualquer possibilidade de pensar sua mensagem, e assim, artisticamente, a peça fica deficitária).
Daniel de Oliveira (em apenas uma palavra: fenômeno) é o rapaz branco em uma terra de caboclos, efeminado ao extremo em uma terra de bugres machos, de manias de fineza em um deserto de boas maneiras, que tem o "dom" de "benzer" e "curar" as pessoas, reverenciado como uma entidade local em um fim-de-mundo amazonense.
Tudo isso por conta dos "recados" que supostamente ouve do além, manifestados pelo espírito de uma garotinha cuja morte (os detalhes não são dados - há, sim, nuances de quebra-cabeças) parece ter chocado a população da região.
Entre um turbilhão de conflitos pessoais vigorantes para um povo cujo relógio do tempo parece andar para trás, o "Santinho" se vês às voltas com o 20º aniversário da festa, na verdade, um culto pagão-sincrético onde ele deve "falar" para o povo as palavras proféticas da menina.
Assustador, denso, triste, "A Festa..." traz para a tela todo o nojo e o vigor com o qual o inferno nos assola. Incesto, machismo, hipocrisia, cinismo, pavor, tristeza, estagnação cultural. Impossibilidade de ir além. Impossibilidade de ir ali. Impossibilidade de qualquer coisa que não a tortura de viver assim: tudo isso tendo como núcleo um pivete com sérios problemas de auto-estima que finge acreditar naquilo em que a maioria da cidade acredita narcotizantemente: que ele é uma espécie de deus.
Com um elenco de luxo, que conta com Jackson Antunes fazendo o papel do grosso gambá de sempre (e bem, como sempre) e com uma trupe de "amadores" de respeito, Nachtergaele comprova, talvez (excluída a improvável hipótese da mera sorte de principiante), que é um diretor tão fantástico quanto é trabalhando NA FRENTE das câmeras.
O choro do personagem Tadeu (Juliano Cazarré, de desempenho excelente) no início do filme e sua resignação entre o constrangimento e a adequação à "massa" dão o tom de que, definitivamente, dias melhores NÃO VIRÃO.
Nota 10.