Black Crowes com pinta de bolivianos da Rua da Praia, lançando disco no programa de David Letterman: Chris Robinson, disposto a não voltar mais para a terra do nunca do stoner rock, envelheceu, definitivamente. Isso não é ruim, mas está longe de ser muito bom. Veja o vídeo da mini-apresentação da nova "Good Morning, Captain", clicando aqui.Quando sai
disco novo dos
Black Crowes, a situação na REDAÇÃO deste blog equivale àquelas gagues televisivas estereotipadas em que alguém invade a sala da direção de um pasquim qualquer e ordena que PAREM as ROTATIVAS.
Aqui estou após uma semana de audições-teste de "
Before the Frost...".
Para uma banda que havia se "separado" e não tocava unida há 7 anos, lançar um disco inédito em 2008, um registro ao vivo dessa mesma (bem sucedida) turnê no final do ano e outro disco inédito em 2009, parece um recorde. Ainda mais se você não sabe que os
três pontinhos depois do título do disco não são descompromissados: logo logo, para os consumidores que comprarem o trabalho pela web, vai estar disponibilizado via senha para download exclusivo
"...until the freeze", a OUTRA METADE deste, ahn,
álbum duplo (desta vez com covers engrossando o caldo de algumas outras inéditas).
Diante disso, vamos ao breve
review:
Se em "
Warpaint" (leia
minha resenha, do ano passado) os Crowes pareciam ter deixado para trás o passado de barracos internos que sempre fez uma certa inconstância pairar sobre os rumos artísticos do grupo,
"Before the Frost..." exagera na dose "
varanda".
O clima de paz do álbum anterior (ironicamente intitulado de "pintura de guerra") era galvanizado com grandes baladas romântico-tristonhas e rocks enérgicos na melhor tradição da banda, soando, no entanto, como os quarentões que já são (o tempo passa). Não mais furia incontida, mas energia com ares de estar sendo sabiamente canalizada. Foi a sessão de
sexo tântrico da musicalidade do conjunto.
Já nesse novo trabalho, os
irmãos Robinson (
Chris o vocalista e "líder" e
Rich, o guitarrista e sub-gerente) parecem ter extrapolado o fio do padrão "sou-semi-coroa-e-conheço-os-atalhos-da-vida" e o resultado é
maduro demais: há momentos em que parece clara a (péssima) idéia de se fazer soar como grupos inócuos admirados por standards
redneck (tais como
motoqueiros em fim de carreira e
garçonetes trajando
camisa xadrez sem mangas e chapéu de cowboy), na linha de
Kansas e - deus me livre e guarde -
Eagles.
E para alguém que despontou nas paradas americanas nos early 90's, desbancando o grunge que reinava na época como sendo uma cria de um
menàge entre
Rolling Stones,
Led Zeppelin e
Lynrd Sknrd, isso é, tipo, ESTRANHO.
Não que seja algo assombrosamente ruim: titios
Mick Jaegger e Keith Richards ficariam orgulhosos de coisas como "
A trains still makes a lonely sound" (emulação
stoniana de primeira qualidade) e a popíssima (enigmática, em se tratando do Black Crowes)
"I ain't hiding". A abertura com "
Good morning Captain" mantém a banda fincada em suas
origens sulistas (outra referência clara na musicalidade dos Corvos) do jeito que os fãs esperam e até aí a coisa vai bem.
O problema está no, digamos,
"espírito" do disco: coisas como "
Houston don't dream about me" passariam, em tese, no padrão Robinson de temas melosos que volta e meia surgem nos discos. Porém sua levada é
tão óbvia e seu refrão é
tão fácil e bobo que parece aqueles sucessos de que eriçar os cabelos do braço de
vovôs que frequentam
bares on-the-road e já deram o que tinham que dar. Dá até pra imaginar os Black Crowes em sua décima nona formação - sem ninguém da original - daqui uns 20 anos cantando essa para a alegria da velharada, como aquelas "bandas" estilo
we stand still, tipo esse
Creedance e esse
The Doors que vagam ainda pela terra
sabe-se lá fazendo o que."
Appaloosa" é outra canção em fogo brando que irrita pela ausência de pegada (dá vontade de mandar um e-mail perguntando se eles estão de sacanagem). E se os rapazes de Atlanta já se aparentaram com alguns temas incendiários do
zepelin de chumbo pelo
poder de desvario, a
fraca "
Kept my soul" lembra Robert Plant e companhia nos momentos MENOS iluminados (caberia bem no "
Presence"de 1977, essa).
Se o posto de grande baladão flash the lights da banda já foi ocupado por clássicos como "
She talks to angels" (do primeiro disco) e "
Cursed diamond" (do Amorica), em pauta está a bela e melancólica ode country aos corações partidos,
"Last place that love lives". É o tipo de faixa que faz qualquer um crer que Chris Robinson realmente MERECE tudo oque a vida já lhe deu de bom.
Arrepiante, a canção é uma prova de que sobra talento e sangue nas veias desse bando de cabeludos, para que exijamos deles algo a altura do que eles mesmos conseguem fazer.Nada de errado, em tese, com um disco nessa batida. O problema é que
tanto espiritualismo meio que torna a audição pesada.
Tanta maturidade tira um pouco a graça da coisa. E
tanto bucolismo faz a gente ter saudade de um engarrafamentozinho enquanto bebe um Milkshake do Bob's.